Histórias de Vidas

Ginecologia e Obstetrícia

Após o termino da primeira residência médica em Pediatria e Puericultura, percebi que queria acompanhar a chegada daqueles Seres tão apaixonantes, os bebes. Resolvi me apresentar a eles mesmo antes da fecundação, sim  isso mesmo porque a humanização do parto não é como um produto que se entrega ao final de algum tempo de gestação e espera, implica em escolha consciente,  e preparo físico, emocional e espiritual. E era uma maneira de cuidar que a aterrissagem neste planeta fosse bem sucedida, cordial e amorosa. Então lá estava eu  como aluna novamente ingressando em  um novo ciclo de aprendizado feliz; para a iniciar a especialização em Ginecologia e Obstetrícia.

O AMOR CHEGOU PRIMEIRO

 O amor chegou primeiro, antes mesmo da conclusão da Especialização. E durante minha Residência Médica já me tocava o  tamanho desespero e dor que algumas pacientes experimentavam, numa  momento que a meu ver poderia ser suavizado e mais feliz.

Algo em mim dizia sobre que memorias ficariam desse dia e eu tinha um questionamento, quanto interferir ? quanto assistir? quanto permitir sem negligenciar? estava tateando uma nova maneira de  nascer sem no entanto ignorar os conhecimentos da academia médica.

 Fui uma residente dedicada e um dia chegou em nosso serviço uma paciente oriental recém-chegada ao Brasil em trabalho de parto, sem saber comunicar-se em qualquer língua que não a sua própria língua pátria. Esta mulher forte recém chegada mudaria muita coisa em minha vida profissional.

Ela sabia respirar , e estava ativa todo o tempo, andando, agachando-se.  Durante todo trabalho de parto quase não  nos permitiu examina-la, apenas ao termino. Finalmente o bebe estava para nascer, o que se deu de maneira natural e fiquei surpreendida ao ver essa jovem e corajosa mãe arranca-lo das mãos do pediatra como uma leoa e coloca-lo imediatamente no peito abraçando seu bebe, conversando com ele, dando as boas vindas. Essa pratica era completamente nova para nós. Conheciamos o parto Leboyer , que pretendia  tornar menos traumática a chegada dos bebes a este plano ( 1974), e este tipo de abordagem não fazia parte  da formação do médico obstetra na Residência medicastro estava bem e todos nos rendemos. O ano era 1991 não se sonhava com parto humanizado aquela altura.

Desde esse dia comecei a me comprometer ainda mais com a chegada dos bebes, de forma mais próximas de suas mães. Me alinhei a lição que aprendera com aquela mulher e como boa observadora, levei minha atenção e coração para outras formas de nascer em diferentes culturas. Naquela altura também iniciei a pratica das respirações longas e suaves durante o trabalho de parto, experimentalmente introduzi a  digitopuntura para alivio das dores, uma vez que a acupuntura ainda não era permitida no Brasil. Observei que a deambulação e a água quente eram um bons analgésicos. Comecei restringir a indicação clássica das analgesias de parto, que limitavam a paciente ao leito, em virtude dos anestésicos disponíveis naquele momento do tempo. Na maioria dos serviços públicos as mães ficavam isoladas de suas famílias naquela altura, muitas vezes sendo colocadas em quarto coletivos com até oito mulheres deitadas todo o tempo. Percebi que uma atitude mais próxima, com toques suaves e uma conversa calma e pausada acabava por ajuda-las no controle de suas respirações e contrações. Com bom humor as tirava dessa condição pedindo que caminhassem um pouco, o acolhimento do assistencialista tinha sim uma influencia positiva no desfecho do parto. 

Aprendi a esperar, ouvir e dar a mão quando esta era um apoio. Na ânsia de promover maior acolhimento comecei a diminuir as luzes na hora do nascimento, independentemente da via de parto. Como tudo o que é novo, nem sempre essas praticas foram entendidas, principalmente por parte de alguns colegas. Felizmente haviam muitos outros médicos que como eu já pensavam nestas questões e finalmente em 2000 a OMS lançaria as normas para as práticas que eu e outros médicos já executavamos, normatizando-as como boas práticas e nominando-as como Parto Humanizado.